As disciplinas que apagam as conexões

Como revelar as conexões estruturais que as separações disciplinares tornam invisíveis

por Rogério Mattos

As disciplinas que apagam as conexões

Como revelar as conexões estruturais que as separações disciplinares tornam invisíveis

por Rogério Mattos

As disciplinas que apagam as conexões

Como revelar as conexões estruturais que as separações disciplinares tornam invisíveis

por Rogério Mattos

A separação em esferas isoladas

"A experiência no Ocidente tem sido não só implementar uma dominação a distância e reforçar a hegemonia, como também dividir os âmbitos da cultura e da experiência em esferas aparentemente isoladas", escreveu Edward Said em "Cultura e Imperialismo".


Essa operação — dividir em esferas isoladas — não organiza conhecimento de forma neutra. Apaga conexões. Quando você estuda Jane Austen em "Mansfield Park", a crítica literária tradicional analisa personagens, estilo narrativo, estrutura dramática. Trata a tranquilidade doméstica inglesa como se fosse autossuficiente.


Mas Said diz que "há quase nenhuma menção de Antígua no romance, apesar do fato de que em sentido estrutural a história depende dela". A riqueza da família Bertram — que possibilita todo o enredo — vem de plantações de açúcar trabalhadas por escravizados. A separação disciplinar (literatura aqui, história econômica ali, estudos coloniais além) torna invisível essa conexão estrutural.


Você pode dominar literatura inglesa do século XIX sem jamais pensar nas colônias que a sustentam. Pode analisar filosofia europeia sem ver suas geografias imaginativas sobre o "Oriente". Pode estudar a formação cultural brasileira sem conectar as narrativas literárias com as estruturas econômicas coloniais.


As disciplinas não apenas separam campos — apagam o que conecta. E você, mesmo dominando sua área sofisticadamente, pode estar reproduzindo esses apagamentos sem perceber.

01

O que a separação disciplinar invisibiliza

Said desenvolveu uma metodologia específica para revelar conexões apagadas: a leitura contrapontística. Emprestada do contraponto musical, exige "pensar e interpretar juntas experiências que são discrepantes, cada uma com sua agenda própria e ritmo de desenvolvimento".

Contrapontística não é interdisciplinaridade (juntar literatura + história + sociologia). É ler o que foi estruturalmente apagado pela separação disciplinar. Considerar simultaneamente "a história metropolitana que é narrada E aquelas outras histórias contra as quais (e junto com as quais) o discurso dominante atua".

Quando você lê Camus em "O Estrangeiro" ou "A Peste", a crítica literária foca temas universais — absurdo, condição humana, existencialismo. Mas Said nota que "apenas três árabes aparecem... nenhum deles é nomeado ou fala" em "O Estrangeiro". Em "A Peste", "não há árabes nomeados... É um romance inteiramente sobre europeus" — numa Argélia onde árabes eram 90% da população.

A separação disciplinar permite que filosofia extraia "temas universais" apagando o colonialismo. A literatura analisa o "estilo narrativo" sem ver o apagamento populacional. A história estuda a era dos impérios, a literatura estuda Camus — nunca juntos, nunca contrapontisticamente.

02

Estruturas de atitude que naturalizam separações

Said identificou "estruturas de atitude e referência" — padrões sistemáticos na produção cultural que naturalizam relações de dominação. Não são conteúdos explícitos (ninguém diz "apoiamos o colonialismo"), mas molduras que definem de antemão o pensável.


As estruturas econômicas mostram a riqueza metropolitana sem revelar sua origem colonial. As estruturas geográficas constroem o "exterior" como exótico, primitivo. A estruturas narrativas posicionam os sujeitos colonizados como objetos, nunca como agentes com histórias próprias.


E crucial, as disciplinas reproduzem essas estruturas através de suas separações. A economia estuda acumulação de capital sem a literatura que mostra como narrativas culturais legitimaram a expropriação. A literatura analisa cânones sem a economia política que explica condições materiais de produção. A antropologia estuda "culturas" como esferas isoladas sem história de como foram violentamente separadas.


Você pode ter formação sofisticada, ler teoria crítica densa, dominar autores radicais — e ainda operar dentro dessas estruturas de atitude porque sua disciplina as naturalizou através de protocolos metodológicos validados.

03

Mundanidade: todo texto existe no mundo

Said desenvolveu o conceito de "mundanidade" — a insistência de que todos os textos, "não importa quão refinados, são mundanos" porque "existem no mundo, foram compilados e compostos no mundo, e os críticos os leem no mundo".


Mundanidade exige que reconheçamos: o que fazemos como críticos, pesquisadores, intelectuais "não acontece apenas na torre de marfim, mas tem consequências reais no mundo ou deveria ter consequências reais no mundo".


As separações disciplinares negam a mundanidade. Criam a ficção de que você pode estudar literatura "em si mesma", filosofia "pura", história "objetiva" — como se textos não tivessem sempre origem em relações de poder específicas, como se leituras não tivessem sempre efeitos políticos concretos.


Quando a crítica literária trata Austen, Conrad, Kipling como "estética pura", nega a mundanidade. Quando a filosofia extrai "conceitos universais" de Hegel sem ver suas geografias imaginativas racializadas, nega a mundanidade. Quando a historiografia trabalha apenas com documentos oficiais sem fabular onde arquivo silenciou, nega a mundanidade.


A negação não é acidental. É estrutural às separações disciplinares que apagam conexões entre produção cultural e relações imperiais de poder.

04

Contra-narrativas e resistência

Said mostrou que "sempre houve alguma forma de resistência ativa, e na maioria esmagadora dos casos, a resistência finalmente venceu". Mas as disciplinas separadas tornam invisíveis essas contra-narrativas — ou as isolam em campos especializados ("estudos pós-coloniais") sem contaminar os cânones centrais.


a Leitura contrapontística revela as contra-narrativas ao "dar ênfase e voz ao que é silencioso ou marginalmente presente". Não é adicionar "perspectivas diversas" ao currículo existente. É ler os próprios cânones contra sua tendência natural para ver o que estruturalmente apagam.


Quando você lê Conrad contrapontisticamente, vê que "O Coração das Trevas funciona tão efetivamente porque sua política e estética são, por assim dizer, imperialistas" — mesmo enquanto critica o império explicitamente. Quando lê Kipling, vê como "Kim" naturaliza a dominação colonial ao ponto de adquirir "status quase de fato natural".


Principalmente, a leitura contrapontística conecta narrativas metropolitanas com histórias de resistência que disciplinas separadas tornaram invisíveis. A literatura anticolonial não fica isolada em "estudos pós-coloniais", mas contamina a leitura de todo cânone ocidental.

05

Prática contrapontística

A leitura contrapontística não se aprende lendo sobre ela. Exige a prática de conectar o que disciplinas separaram, ver a mundanidade onde os protocolos negam, revelar as estruturas de atitude que naturalizam apagamentos.


O Cine-Poesia opera através de três eixos (literatura, cinema brasileiro, historiografia) precisamente para tornar inoperosas as separações disciplinares. Não é interdisciplinaridade — é uma prática contrapontística que força conexões que cada campo isolado não vê.


A prática contrapontística acontece na tensão entre eixos — lendo literatura COM história COM cinema, revelando conexões que separações apagam, considerando simultaneamente narrativas metropolitanas e contra-narrativas de resistência.


Mediação especializada de quem navegou entre campos. Comunidade que experimenta junto, cada um trazendo apagamentos que percebeu na sua área. Tempo para praticar leituras contrapontísticas sem pressão de validação disciplinar que exige separações.


Você pode continuar dominando sua disciplina separadamente — ou pode desenvolver capacidade de ler contrapontisticamente, revelando conexões que apagamentos naturalizaram.

A separação em esferas isoladas

"A experiência no Ocidente tem sido não só implementar uma dominação a distância e reforçar a hegemonia, como também dividir os âmbitos da cultura e da experiência em esferas aparentemente isoladas", escreveu Edward Said em "Cultura e Imperialismo".


Essa operação — dividir em esferas isoladas — não organiza conhecimento de forma neutra. Apaga conexões. Quando você estuda Jane Austen em "Mansfield Park", a crítica literária tradicional analisa personagens, estilo narrativo, estrutura dramática. Trata a tranquilidade doméstica inglesa como se fosse autossuficiente.


Mas Said diz que "há quase nenhuma menção de Antígua no romance, apesar do fato de que em sentido estrutural a história depende dela". A riqueza da família Bertram — que possibilita todo o enredo — vem de plantações de açúcar trabalhadas por escravizados. A separação disciplinar (literatura aqui, história econômica ali, estudos coloniais além) torna invisível essa conexão estrutural.


Você pode dominar literatura inglesa do século XIX sem jamais pensar nas colônias que a sustentam. Pode analisar filosofia europeia sem ver suas geografias imaginativas sobre o "Oriente". Pode estudar a formação cultural brasileira sem conectar as narrativas literárias com as estruturas econômicas coloniais.


As disciplinas não apenas separam campos — apagam o que conecta. E você, mesmo dominando sua área sofisticadamente, pode estar reproduzindo esses apagamentos sem perceber.

01

O que a separação disciplinar invisibiliza

Said desenvolveu uma metodologia específica para revelar conexões apagadas: a leitura contrapontística. Emprestada do contraponto musical, exige "pensar e interpretar juntas experiências que são discrepantes, cada uma com sua agenda própria e ritmo de desenvolvimento".

Contrapontística não é interdisciplinaridade (juntar literatura + história + sociologia). É ler o que foi estruturalmente apagado pela separação disciplinar. Considerar simultaneamente "a história metropolitana que é narrada E aquelas outras histórias contra as quais (e junto com as quais) o discurso dominante atua".

Quando você lê Camus em "O Estrangeiro" ou "A Peste", a crítica literária foca temas universais — absurdo, condição humana, existencialismo. Mas Said nota que "apenas três árabes aparecem... nenhum deles é nomeado ou fala" em "O Estrangeiro". Em "A Peste", "não há árabes nomeados... É um romance inteiramente sobre europeus" — numa Argélia onde árabes eram 90% da população.

A separação disciplinar permite que filosofia extraia "temas universais" apagando o colonialismo. A literatura analisa o "estilo narrativo" sem ver o apagamento populacional. A história estuda a era dos impérios, a literatura estuda Camus — nunca juntos, nunca contrapontisticamente.

02

Estruturas de atitude que naturalizam separações

Said identificou "estruturas de atitude e referência" — padrões sistemáticos na produção cultural que naturalizam relações de dominação. Não são conteúdos explícitos (ninguém diz "apoiamos o colonialismo"), mas molduras que definem de antemão o pensável.


As estruturas econômicas mostram a riqueza metropolitana sem revelar sua origem colonial. As estruturas geográficas constroem o "exterior" como exótico, primitivo. A estruturas narrativas posicionam os sujeitos colonizados como objetos, nunca como agentes com histórias próprias.


E crucial, as disciplinas reproduzem essas estruturas através de suas separações. A economia estuda acumulação de capital sem a literatura que mostra como narrativas culturais legitimaram a expropriação. A literatura analisa cânones sem a economia política que explica condições materiais de produção. A antropologia estuda "culturas" como esferas isoladas sem história de como foram violentamente separadas.


Você pode ter formação sofisticada, ler teoria crítica densa, dominar autores radicais — e ainda operar dentro dessas estruturas de atitude porque sua disciplina as naturalizou através de protocolos metodológicos validados.

03

Mundanidade: todo texto existe no mundo

Said desenvolveu o conceito de "mundanidade" — a insistência de que todos os textos, "não importa quão refinados, são mundanos" porque "existem no mundo, foram compilados e compostos no mundo, e os críticos os leem no mundo".


Mundanidade exige que reconheçamos: o que fazemos como críticos, pesquisadores, intelectuais "não acontece apenas na torre de marfim, mas tem consequências reais no mundo ou deveria ter consequências reais no mundo".


As separações disciplinares negam a mundanidade. Criam a ficção de que você pode estudar literatura "em si mesma", filosofia "pura", história "objetiva" — como se textos não tivessem sempre origem em relações de poder específicas, como se leituras não tivessem sempre efeitos políticos concretos.


Quando a crítica literária trata Austen, Conrad, Kipling como "estética pura", nega a mundanidade. Quando a filosofia extrai "conceitos universais" de Hegel sem ver suas geografias imaginativas racializadas, nega a mundanidade. Quando a historiografia trabalha apenas com documentos oficiais sem fabular onde arquivo silenciou, nega a mundanidade.


A negação não é acidental. É estrutural às separações disciplinares que apagam conexões entre produção cultural e relações imperiais de poder.

04

Contra-narrativas e resistência

Said mostrou que "sempre houve alguma forma de resistência ativa, e na maioria esmagadora dos casos, a resistência finalmente venceu". Mas as disciplinas separadas tornam invisíveis essas contra-narrativas — ou as isolam em campos especializados ("estudos pós-coloniais") sem contaminar os cânones centrais.


a Leitura contrapontística revela as contra-narrativas ao "dar ênfase e voz ao que é silencioso ou marginalmente presente". Não é adicionar "perspectivas diversas" ao currículo existente. É ler os próprios cânones contra sua tendência natural para ver o que estruturalmente apagam.


Quando você lê Conrad contrapontisticamente, vê que "O Coração das Trevas funciona tão efetivamente porque sua política e estética são, por assim dizer, imperialistas" — mesmo enquanto critica o império explicitamente. Quando lê Kipling, vê como "Kim" naturaliza a dominação colonial ao ponto de adquirir "status quase de fato natural".


Principalmente, a leitura contrapontística conecta narrativas metropolitanas com histórias de resistência que disciplinas separadas tornaram invisíveis. A literatura anticolonial não fica isolada em "estudos pós-coloniais", mas contamina a leitura de todo cânone ocidental.

05

Prática contrapontística

A leitura contrapontística não se aprende lendo sobre ela. Exige a prática de conectar o que disciplinas separaram, ver a mundanidade onde os protocolos negam, revelar as estruturas de atitude que naturalizam apagamentos.


O Cine-Poesia opera através de três eixos (literatura, cinema brasileiro, historiografia) precisamente para tornar inoperosas as separações disciplinares. Não é interdisciplinaridade — é uma prática contrapontística que força conexões que cada campo isolado não vê.


A prática contrapontística acontece na tensão entre eixos — lendo literatura COM história COM cinema, revelando conexões que separações apagam, considerando simultaneamente narrativas metropolitanas e contra-narrativas de resistência.


Mediação especializada de quem navegou entre campos. Comunidade que experimenta junto, cada um trazendo apagamentos que percebeu na sua área. Tempo para praticar leituras contrapontísticas sem pressão de validação disciplinar que exige separações.


Você pode continuar dominando sua disciplina separadamente — ou pode desenvolver capacidade de ler contrapontisticamente, revelando conexões que apagamentos naturalizaram.

A separação em esferas isoladas

"A experiência no Ocidente tem sido não só implementar uma dominação a distância e reforçar a hegemonia, como também dividir os âmbitos da cultura e da experiência em esferas aparentemente isoladas", escreveu Edward Said em "Cultura e Imperialismo".


Essa operação — dividir em esferas isoladas — não organiza conhecimento de forma neutra. Apaga conexões. Quando você estuda Jane Austen em "Mansfield Park", a crítica literária tradicional analisa personagens, estilo narrativo, estrutura dramática. Trata a tranquilidade doméstica inglesa como se fosse autossuficiente.


Mas Said diz que "há quase nenhuma menção de Antígua no romance, apesar do fato de que em sentido estrutural a história depende dela". A riqueza da família Bertram — que possibilita todo o enredo — vem de plantações de açúcar trabalhadas por escravizados. A separação disciplinar (literatura aqui, história econômica ali, estudos coloniais além) torna invisível essa conexão estrutural.


Você pode dominar literatura inglesa do século XIX sem jamais pensar nas colônias que a sustentam. Pode analisar filosofia europeia sem ver suas geografias imaginativas sobre o "Oriente". Pode estudar a formação cultural brasileira sem conectar as narrativas literárias com as estruturas econômicas coloniais.


As disciplinas não apenas separam campos — apagam o que conecta. E você, mesmo dominando sua área sofisticadamente, pode estar reproduzindo esses apagamentos sem perceber.

01

O que a separação disciplinar invisibiliza

Said desenvolveu uma metodologia específica para revelar conexões apagadas: a leitura contrapontística. Emprestada do contraponto musical, exige "pensar e interpretar juntas experiências que são discrepantes, cada uma com sua agenda própria e ritmo de desenvolvimento".

Contrapontística não é interdisciplinaridade (juntar literatura + história + sociologia). É ler o que foi estruturalmente apagado pela separação disciplinar. Considerar simultaneamente "a história metropolitana que é narrada E aquelas outras histórias contra as quais (e junto com as quais) o discurso dominante atua".

Quando você lê Camus em "O Estrangeiro" ou "A Peste", a crítica literária foca temas universais — absurdo, condição humana, existencialismo. Mas Said nota que "apenas três árabes aparecem... nenhum deles é nomeado ou fala" em "O Estrangeiro". Em "A Peste", "não há árabes nomeados... É um romance inteiramente sobre europeus" — numa Argélia onde árabes eram 90% da população.

A separação disciplinar permite que filosofia extraia "temas universais" apagando o colonialismo. A literatura analisa o "estilo narrativo" sem ver o apagamento populacional. A história estuda a era dos impérios, a literatura estuda Camus — nunca juntos, nunca contrapontisticamente.

02

Estruturas de atitude que naturalizam separações

Said identificou "estruturas de atitude e referência" — padrões sistemáticos na produção cultural que naturalizam relações de dominação. Não são conteúdos explícitos (ninguém diz "apoiamos o colonialismo"), mas molduras que definem de antemão o pensável.


As estruturas econômicas mostram a riqueza metropolitana sem revelar sua origem colonial. As estruturas geográficas constroem o "exterior" como exótico, primitivo. A estruturas narrativas posicionam os sujeitos colonizados como objetos, nunca como agentes com histórias próprias.


E crucial, as disciplinas reproduzem essas estruturas através de suas separações. A economia estuda acumulação de capital sem a literatura que mostra como narrativas culturais legitimaram a expropriação. A literatura analisa cânones sem a economia política que explica condições materiais de produção. A antropologia estuda "culturas" como esferas isoladas sem história de como foram violentamente separadas.


Você pode ter formação sofisticada, ler teoria crítica densa, dominar autores radicais — e ainda operar dentro dessas estruturas de atitude porque sua disciplina as naturalizou através de protocolos metodológicos validados.

03

Mundanidade: todo texto existe no mundo

Said desenvolveu o conceito de "mundanidade" — a insistência de que todos os textos, "não importa quão refinados, são mundanos" porque "existem no mundo, foram compilados e compostos no mundo, e os críticos os leem no mundo".


Mundanidade exige que reconheçamos: o que fazemos como críticos, pesquisadores, intelectuais "não acontece apenas na torre de marfim, mas tem consequências reais no mundo ou deveria ter consequências reais no mundo".


As separações disciplinares negam a mundanidade. Criam a ficção de que você pode estudar literatura "em si mesma", filosofia "pura", história "objetiva" — como se textos não tivessem sempre origem em relações de poder específicas, como se leituras não tivessem sempre efeitos políticos concretos.


Quando a crítica literária trata Austen, Conrad, Kipling como "estética pura", nega a mundanidade. Quando a filosofia extrai "conceitos universais" de Hegel sem ver suas geografias imaginativas racializadas, nega a mundanidade. Quando a historiografia trabalha apenas com documentos oficiais sem fabular onde arquivo silenciou, nega a mundanidade.


A negação não é acidental. É estrutural às separações disciplinares que apagam conexões entre produção cultural e relações imperiais de poder.

04

Contra-narrativas e resistência

Said mostrou que "sempre houve alguma forma de resistência ativa, e na maioria esmagadora dos casos, a resistência finalmente venceu". Mas as disciplinas separadas tornam invisíveis essas contra-narrativas — ou as isolam em campos especializados ("estudos pós-coloniais") sem contaminar os cânones centrais.


a Leitura contrapontística revela as contra-narrativas ao "dar ênfase e voz ao que é silencioso ou marginalmente presente". Não é adicionar "perspectivas diversas" ao currículo existente. É ler os próprios cânones contra sua tendência natural para ver o que estruturalmente apagam.


Quando você lê Conrad contrapontisticamente, vê que "O Coração das Trevas funciona tão efetivamente porque sua política e estética são, por assim dizer, imperialistas" — mesmo enquanto critica o império explicitamente. Quando lê Kipling, vê como "Kim" naturaliza a dominação colonial ao ponto de adquirir "status quase de fato natural".


Principalmente, a leitura contrapontística conecta narrativas metropolitanas com histórias de resistência que disciplinas separadas tornaram invisíveis. A literatura anticolonial não fica isolada em "estudos pós-coloniais", mas contamina a leitura de todo cânone ocidental.

05

Prática contrapontística

A leitura contrapontística não se aprende lendo sobre ela. Exige a prática de conectar o que disciplinas separaram, ver a mundanidade onde os protocolos negam, revelar as estruturas de atitude que naturalizam apagamentos.


O Cine-Poesia opera através de três eixos (literatura, cinema brasileiro, historiografia) precisamente para tornar inoperosas as separações disciplinares. Não é interdisciplinaridade — é uma prática contrapontística que força conexões que cada campo isolado não vê.


A prática contrapontística acontece na tensão entre eixos — lendo literatura COM história COM cinema, revelando conexões que separações apagam, considerando simultaneamente narrativas metropolitanas e contra-narrativas de resistência.


Mediação especializada de quem navegou entre campos. Comunidade que experimenta junto, cada um trazendo apagamentos que percebeu na sua área. Tempo para praticar leituras contrapontísticas sem pressão de validação disciplinar que exige separações.


Você pode continuar dominando sua disciplina separadamente — ou pode desenvolver capacidade de ler contrapontisticamente, revelando conexões que apagamentos naturalizaram.

operar criticamente
não apenas consumir

operar criticamente
não apenas consumir

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o percurso

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O Cine-Poesia trabalha através de três eixos que criam zonas de indistinção:

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1. O Percurso do Narrador

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Como narrativas funcionam para colonizar e como a linguagem de poesia é a fuga necessária. Como criar uma literatura menor que desestabiliza consensos. De Benjamin e Pasolini a Silviano Santiago e Guimarães Rosa.

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2. A Narrativa Documental Brasileira

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Como cinema brasileiro documenta e fabula simultaneamente. Como imagens pensam em vez de apenas representar. Como tornar inoperosa a distinção ficção/documentário.


De Glauber Rocha a Eduardo Coutinho, e ao cinema contemporâneo.

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  1. Narrativas do Passado

crítica e memória

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Como história é narrativa que organiza passado de certas formas e não de outras. Como novas abordagens desmontam narrativas dominantes. Como fabular onde arquivo silenciou.


De Koselleck a Saidiya Hartman, da historiografia ao patrimônio nacional.

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De Koselleck a Saidiya Hartman, da historiografia ao patrimônio nacional.

Não é nada simples, pois pelo menos desde o século XVIII, creio eu, a essência da experiência no Ocidente tem sido não só implementar uma dominação a distância e reforçar a hegemonia, como também dividir os âmbitos da cultura e da experiência em esferas aparentemente isoladas

Edward Said, "Cultura e imperialismo"

Não é nada simples, pois pelo menos desde o século XVIII, creio eu, a essência da experiência no Ocidente tem sido não só implementar uma dominação a distância e reforçar a hegemonia, como também dividir os âmbitos da cultura e da experiência em esferas aparentemente isoladas

Edward Said, "Cultura e imperialismo"

Não é nada simples, pois pelo menos desde o século XVIII, creio eu, a essência da experiência no Ocidente tem sido não só implementar uma dominação a distância e reforçar a hegemonia, como também dividir os âmbitos da cultura e da experiência em esferas aparentemente isoladas

Edward Said, "Cultura e imperialismo"

Para quem é o Cine-Poesia

Para quem é o Cine-Poesia?

Para quem tem inquietação genuína sobre o papel do intelectual na formação da cultura.

Para quem consome cultura mas sente que falta capacidade de operar criticamente. Não mais informação, mas modos de pensar.

Para quem já tentou outras formações — cursos livres que ficaram na superfície, grupos de estudo que se dissolveram, leituras solitárias que não levaram a lugar nenhum — e reconhece que precisa de percurso estruturado com mediação intelectual.

O Cine-Poesia é um arquivo vivo, sempre em movimento, com módulos interdependentes. Você pode participar dos encontros quinzenais ao vivo ou acompanhar pelas gravações — o importante não é o formato, mas a disposição para habitar esse arquivo por tempo real. Há amplo espaço para experimentação: propor temas, trazer inquietações, criar conexões inesperadas entre os eixos.

Mas isso exige duas coisas não negociáveis: decisão financeira comprometida — não é compra por impulso ou curiosidade passageira — e ousadia intelectual para operar fora dos protocolos validados.

Para quem busca comunidade de desejo partilhado: não acumular repertório, mas desenvolver capacidade de pensamento próprio, de operação crítica na cultura. Como prática que se habita ao longo de um ano, não mercadoria fácil que se consome.

Aulas gravadas e/ou ao vivo

Materiais em PDF, filmes, resumos, textos de apoio

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Rogério Mattos

Prof.º Dr.º

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Rogério Mattos

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// QUEM CRIOU O GRUPO //

// QUEM CRIOU O GRUPO //


Doutor em Estudos Literários pela UFF, com formação em História (UERJ) e mestrado em Literatura Portuguesa (UERJ). Atualmente pesquisa historiografia e patrimônio histórico na UNIRIO.


Há quinze anos transita entre sala de aula e mídias digitais, entre periódicos acadêmicos e portais como GGN e Brasil de Fato. Sua formação híbrida não é acidental — é método. História ensinou a ler rupturas e permanências. Literatura revelou como narrativas constituem o real. Cinema mostrou territórios de sobrevivência onde linguagem gagueja. O patrimônio forçou a ver o que arquivo textual recalca.


Opera entre academia e margens, entre arquivo histórico e audiovisual contemporâneo, entre teoria crítica e patrimônio vivo. Criando zonas de pensamento onde disciplinas se contaminam, consensos são questionados, sobrevivências são vistas.



Rogério Mattos é doutor em Estudos Literários pela UFF e professor com quinze anos de experiência atravessando o ensino básico e superior, a educação pública e privada. Sua formação híbrida – História (UERJ), Literatura Portuguesa (mestrado/UERJ), História da África e do negro no Brasil (especialização/UCAM) – reflete uma recusa deliberada às fronteiras disciplinares que empobreceram o pensamento brasileiro.


Desde 2016, desenvolve através d'O Abertinho uma prática ensaística que desafia a separação entre rigor acadêmico e engajamento político. Seus textos circularam por publicações como Teoria e Debate, Brasil de Fato, GGN e diversos periódicos acadêmicos – sempre na fronteira entre a análise cultural e a intervenção crítica.


Sua abordagem articula teoria literária, análise histórica e crítica da cultura para desvendar os mecanismos de despolitização que estruturam o Brasil contemporâneo. Não por acaso: entende que a destruição da imaginação política brasileira passa necessariamente pela fragmentação dos saberes e pela tecnicização do debate público.


Neste curso, mobiliza décadas de pesquisa sobre as transformações da cultura política brasileira – de Dias Gomes a Conceição Tavares, do grotesco televisivo ao consenso neoliberal – para revelar como fomos ensinados a não pensar alternativas.



Rogério Mattos é doutor em Estudos Literários pela UFF e professor com quinze anos de experiência atravessando o ensino básico e superior, a educação pública e privada. Sua formação híbrida – História (UERJ), Literatura Portuguesa (mestrado/UERJ), História da África e do negro no Brasil (especialização/UCAM) – reflete uma recusa deliberada às fronteiras disciplinares que empobreceram o pensamento brasileiro.


Desde 2016, desenvolve através d'O Abertinho uma prática ensaística que desafia a separação entre rigor acadêmico e engajamento político. Seus textos circularam por publicações como Teoria e Debate, Brasil de Fato, GGN e diversos periódicos acadêmicos – sempre na fronteira entre a análise cultural e a intervenção crítica.


Sua abordagem articula teoria literária, análise histórica e crítica da cultura para desvendar os mecanismos de despolitização que estruturam o Brasil contemporâneo. Não por acaso: entende que a destruição da imaginação política brasileira passa necessariamente pela fragmentação dos saberes e pela tecnicização do debate público.


Neste curso, mobiliza décadas de pesquisa sobre as transformações da cultura política brasileira – de Dias Gomes a Conceição Tavares, do grotesco televisivo ao consenso neoliberal – para revelar como fomos ensinados a não pensar alternativas.

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